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A sedução de pagar menos

 | 05.04.2007

Com promoções agressivas, as empresas de baixo custo atraem um público amplo -- de turistas de primeira viagem a executivos

 

Divulgação

Vôo de uma companhia de baixo custo: crescimento acima da média do setor

Por Guy Corrêa

EXAME 

A trajetória da CVC, hoje a maior operadora de turismo brasileira, ajuda a explicar uma das mais importantes transformações já vistas no mercado de turismo brasileiro: o avanço das empresas de low cost, low fare ("baixo custo, baixa tarifa", em português). A CVC nasceu como uma pequena agência de viagens que vendia fins de semana na praia para aposentados da região do ABC paulista. Em pouco menos de três décadas, essa companhia emergiu como um dos maiores grupos de turismo do Brasil. De acordo com os dados levantados pelo ANUARIO DE TURISMO EXAME, a CVC é hoje a terceira maior empresa do país no setor, com faturamento de 1,9 bilhão de reais, atrás apenas da TAM e da Gol (mais uma representante das empresas de baixo custo). Boa parte desse sucesso pode ser creditada à venda de pacotes para as classes C e D, mercado que forma a espinha dorsal das receitas da empresa. Mas nos últimos tempos um público diferente tem recebido a mochilinha de viagem da CVC: o das classes A e B. "Temos aumentado nossa presença nas classes sociais mais altas", diz Guilherme Paulus, fundador e presidente do conselho de administração da CVC. "Hoje, vendemos de pacotes baratos a cruzeiros de luxo."

Quando as companhias de baixo custo começaram a operar no Brasil, havia pouca clareza sobre que tipo de público seria atraído por essa oferta. Muitos analistas do setor pensavam que essas empresas fariam uma espécie de revolução no turismo brasileiro, universalizando o acesso a avião, hotéis e destinos a quem nunca teve oportunidade. Isso, em parte, aconteceu. A cada ano, mais pessoas das classes C e D fazem sua primeira viagem no Brasil. Cálculos do Ministério do Turismo estimam que esse mercado esteja crescendo a um ritmo anual de 15%. Esse universo ajudou a embalar, por exemplo, destinos como a cidade de Porto Seguro. Uma viagem para o município baiano, em baixa temporada, sai por apenas 500 reais (incluindo bilhete aéreo, hotel, café da manhã e passeios). Resultado: 1,2 milhão de pessoas por ano estão viajando para Porto Seguro -- muitas graças a pacotes da CVC. Além do crescimento em números absolutos, outra mudança visível entre os turistas de baixa renda é a troca do meio de transporte. Em vez de viajar de ônibus, um número cada vez maior de pessoas tem preferido o avião. "E elas utilizam cada vez mais a internet", diz Tarcísio Gargioni, vice-presidente da Gol.

O avanço das companhias aéreas de baixo custo
Participação no mercado de linhas domésticas
2005
Tradicionais
(TAM e Varig)
70%
Baixo custo
(Gol, BRA,OceanAir)
30%
2006
Tradicionais
(TAM e Varig)
60%
Baixo custo
(Gol, BRA,OceanAir)
40%
Fonte: Anac

Esse modelo de empresa tornou-se uma opção também para pessoas de classes mais abastadas. Um exemplo é a Gol, a primeira companhia aérea de baixo custo do país. Fundada em 2001, a Gol fatura hoje mais de 3,8 bilhões de reais e transporta 17,5 milhões de passageiros ao ano, crescimento espetacular em menos de uma década. Apenas 10% do total de bilhetes é das classes C e D. Os outros 90%, que não se encaixam nesse perfil, também se sujeitam a comer as barrinhas de cereais. No setor de hotéis, é possível observar esse fenômeno com bastante clareza. Uma das pioneiras, a rede francesa Accor conta atualmente com 46 hotéis das bandeiras Ibis (econômica) e Formule 1 (supereconômica) no Brasil. Até 2010, serão mais 34 empreendimentos com essas características. Detalhe: 76% dos clientes da rede Ibis no país hospedam-se lá a trabalho.

As empresas de baixo custo são uma tendência mundial. Na Índia, nos Estados Unidos e na Europa, proliferam os grupos especializados nesse filão. Um dos mais impressionantes é o easyGroup, de Stelios Haji-Ioannou, jovem empresário grego radicado na Inglaterra. A empresa começou como linha aérea e hoje vende cruzeiros, hotéis e até pizzas no modelo baixo custo, baixa tarifa. A razão do sucesso de empresas como essa é o equilíbrio entre preço e serviço. Alguns hotéis dessa categoria têm quartos pequenos, sem televisão ou frigobar. Em compensação, os quartos são limpos, os móveis novinhos e a roupa de cama muito bem cuidada. Mas qual a mágica para operar com preços tão baixos e ainda conseguir lucro? O melhor exemplo de empresa que consegue equilibrar essa equação é a companhia irlandesa Ryanair. Com promoções agressivas, a aérea chega a cobrar apenas 0,79 euro por uma passagem no trecho Londres­Roma. A empresa, porém, é lucrativa porque o passageiro paga até por um copo d'água servido a bordo. Tem dado certo. No mundo todo, as companhias aéreas econômicas cresceram 17% em 2006.

 
Ricardo Amorim, diretor da Concórdia Corretora
 

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